O Cabo Que Driblou os Estados Unidos
Como a EllaLink Reconectou o Brasil ao Mundo
eyesonbrasil
Amsterdã, 13 de julho de 2026 — Seis mil quilômetros no fundo do Atlântico, um feixe de fibras de vidro não mais espesso que uma mangueira de jardim está silenciosamente transformando a forma como os brasileiros acessam a internet. Não tem um nome que a maioria das pessoas reconheceria, nem uma sede chamativa, nem um aplicativo voltado ao consumidor final. Mas a EllaLink talvez seja uma das infraestruturas mais importantes construídas pelo Brasil na última década — e conseguiu fazer algo que, por mais de vinte anos, ninguém havia conseguido: conectar diretamente a América do Sul à Europa.
Uma Linha Reta Onde Só Havia um Desvio
Por mais de duas décadas, não existiu uma rota direta e prática de dados entre a Europa e a América do Sul. O único cabo antigo, chamado Atlantis-2, tinha capacidade limitada demais para transportar tráfego relevante de internet. Assim, todo e-mail, chamada de vídeo, transação bancária ou pedido de streaming que precisasse viajar entre, digamos, São Paulo e Lisboa, tinha que fazer um longo desvio — geralmente passando por Miami ou outros centros nos Estados Unidos antes de cruzar o Atlântico rumo à Europa.

Esse desvio não era apenas inconveniente. Ele acrescentava atraso, custo e — como se tornou uma preocupação política crescente — uma camada de dependência da infraestrutura americana. Um dos objetivos fundadores da EllaLink era justamente contornar os Estados Unidos e sua coleta de dados “upstream”, já que rotear tudo pela infraestrutura americana dava às agências de inteligência dos EUA um ponto de observação estrutural sobre as comunicações europeias e sul-americanas. O próprio governo brasileiro levou isso a sério: a então presidente Dilma Rousseff argumentou, em 2014, que um cabo direto seria essencial para garantir a neutralidade da internet na região.
A EllaLink é a resposta a esse problema, construída em forma física.
O Cabo em Si
O sistema conecta grandes polos, incluindo São Paulo e Fortaleza no Brasil, com Lisboa e Madri na Europa, sendo que o trecho principal de Sines a Fortaleza se estende por aproximadamente 5.900 quilômetros[^2] pelo leito do Atlântico — outras fontes arredondam para cerca de 6.000 km de ponta a ponta. O cabo entrou em operação em 1º de junho de 2021,[^1] culminando um projeto que havia sido formado em 2012, começou o planejamento de construção em 2015, teve o contrato de fornecimento concedido à Alcatel Submarine Networks em 2017, e finalmente teve o cabo físico instalado a partir de dezembro de 2020, por dois navios especializados, o Ile de Bréhat e o Ile de Sein.

Os números são verdadeiramente impressionantes. O sistema oferece uma capacidade total de 100 terabits por segundo distribuídos em quatro pares de fibra, com até 25 Tbps disponíveis por par.[^2] Para efeito de comparação, um único terabit por segundo é suficiente para transmitir cerca de 200 mil chamadas de vídeo em HD simultâneas — e a EllaLink pode, em teoria, entregar cem vezes essa capacidade entre os dois continentes.
Tão importante quanto a largura de banda bruta é a latência. A EllaLink oferece um atraso de ida e volta inferior a 60 milissegundos entre Portugal e o Brasil, atualmente o menor do mercado — uma redução de latência de até 50% em comparação com a rota tradicional entre a América Latina e a Europa. Para empresas de negociação financeira, provedores de nuvem e empresas de jogos, esse ganho de milissegundos não é um mero detalhe; pode ser a diferença entre um serviço competitivo e um serviço obsoleto.
Por Que Fortaleza?
Fortaleza não foi escolhida ao acaso. Com mais de 16 cabos internacionais chegando à cidade, a capital do Ceará já é o maior polo de conexões de fibra óptica do mundo — um legado de sua geografia, situada na ponta nordeste do Brasil, a mais próxima da África e da Europa entre as grandes cidades brasileiras. O cabo da EllaLink chega à costa no data center da Telxius em Fortaleza, em regime de acesso aberto,[^9] o que significa que qualquer operadora pode se conectar à capacidade disponível, em vez de ela ficar restrita a um único operador. A partir dessa estação de aterrissagem, o tráfego é estendido até São Paulo e Rio de Janeiro do lado brasileiro, e de Sines até Lisboa, Madri e Marselha do lado europeu.

Do lado europeu, o cabo chega à costa em Sines, Portugal — e o então primeiro-ministro português, António Costa, apresentou o lançamento como parte da transformação de Sines, um dos principais portões de entrada da Europa, em um dos maiores centros de dados do continente.
O Que Isso Realmente Muda Para o Brasil
O upgrade não é abstrato. Ele afeta diversas camadas concretas de como a internet funciona para usuários e empresas brasileiras:
Velocidade e confiabilidade. Com o tráfego deixando de ser forçado a passar por um gargalo americano, a latência entre o Brasil e a Europa cai em até 50%, beneficiando diretamente serviços de nuvem, bancos eletrônicos, streaming de entretenimento e jogos online[^4] para todos cujos dados agora seguem a rota direta em vez do antigo desvio.
Resiliência. Mais cabos chegando em mais lugares significa menos pontos únicos de falha. Uma rota direta entre Brasil e Europa dá ao tráfego de internet da região uma rota alternativa caso haja congestionamento, dano ou falha nos cabos tradicionais roteados pelos EUA — esse tipo de diversidade de rotas é exatamente o que engenheiros de rede querem dizer quando falam sobre a resiliência da internet.
Pesquisa e ciência. O consórcio BELLA — que reúne redes europeias e latino-americanas de pesquisa e educação — foi um dos beneficiados diretos da nova rota, já que a colaboração científica depende cada vez mais de transferir enormes conjuntos de dados de pesquisa rapidamente entre continentes.
Expansão regional. A EllaLink não parou desde 2021. Uma ramificação até Cabo Verde entrou em operação em 2022 com até 30 Tbps de capacidade, e em janeiro de 2024 a EllaLink assinou um contrato para uma nova extensão de 2.100 km até a Guiana Francesa, parte de um padrão mais amplo de expansão da rede no Atlântico Sul e na África Ocidental. A empresa também expandiu sua presença dentro do próprio data center de Fortaleza para acompanhar a demanda, e busca novas extensões em direção à Mauritânia.
Investimento e empregos. O então governador do Ceará, Camilo Santana, destacou cerca de 1 bilhão de reais em investimentos privados que viabilizaram a entrada em operação do cabo, reforçando que essa também é uma história sobre desenvolvimento econômico regional, e não apenas sobre “encanamento” de dados.
Nada disso significa que a infraestrutura de internet do Brasil esteja “pronta” — a de nenhum país jamais está — mas a EllaLink representa uma mudança estrutural: o Brasil agora tem uma via moderna, de alta capacidade, baixa latência e conexão direta com a Europa que não existiu durante toda a história anterior da internet comercial.
Uma Última Reflexão: Por Que a Internet Ainda Passa Por Tubos no Fundo do Oceano
Aqui está a parte que mais surpreende as pessoas: apesar de os satélites dominarem as manchetes — Starlink, Kuiper e os demais — a esmagadora maioria do tráfego internacional de internet, incluindo quase todos os dados que se movem entre continentes, ainda viaja por cabos como a EllaLink, deitados no fundo do mar. Hoje, 426 cabos submarinos de fibra óptica formam uma malha de 1,6 milhão de quilômetros pelos oceanos do mundo, transportando a maior parte do tráfego intercontinental de dados.

Por que a tecnologia de satélite não substituiu isso? Algumas realidades físicas e econômicas explicam o porquê:
A luz no vidro é surpreendentemente eficiente. Um único filamento de fibra óptica pode transportar dezenas de terabits por segundo usando pulsos de luz, com uma perda de sinal baixa o suficiente para que repetidores só precisem reforçá-lo periodicamente ao longo de milhares de quilômetros. Nenhuma tecnologia sem fio de radiofrequência — incluindo os enlaces via satélite — chega perto dessa capacidade de transmissão por conexão física.
A latência, na verdade, favorece os cabos, não os satélites, na maioria das órbitas. É contraintuitivo, mas uma rota submarina bem planejada, seguindo uma linha relativamente reta, muitas vezes supera os satélites geoestacionários tradicionais em termos de atraso, já que os satélites geoestacionários ficam a cerca de 36.000 km de altura — o que significa uma distância de ida e volta enorme para cada sinal. As constelações modernas de órbita baixa da Terra já reduziram boa parte dessa diferença, mas uma rota de fibra direta como a da EllaLink ainda compete muito bem.
O custo por bit é drasticamente menor para os cabos. Instalar um cabo é um investimento inicial enorme, mas, uma vez instalado, ele pode carregar décadas de tráfego a uma fração do custo por gigabyte em comparação com a largura de banda por satélite, que é inerentemente mais limitada e compartilhada entre muitos usuários dentro de uma área de cobertura.
Capacidade, não apenas cobertura, é o que a internet moderna precisa. Streaming de vídeo, computação em nuvem e cargas de trabalho de IA movimentam volumes impressionantes de dados continuamente. Os satélites são extraordinários para alcançar locais remotos ou móveis sem infraestrutura existente, mas não são construídos — hoje — para movimentar 100 Tbps entre dois grandes polos continentais fixos, como um cabo como a EllaLink consegue fazer.
Portanto, satélites e cabos não são exatamente concorrentes; são complementares. Os satélites brilham ao alcançar navios, aviões, regiões remotas e áreas de desastre. Os cabos brilham ao movimentar oceanos de dados de forma barata e rápida entre grandes centros populacionais. É exatamente por isso que, mesmo numa era de foguetes reutilizáveis e vastas constelações de satélites, a espinha dorsal física da internet global ainda está — literalmente — enterrada na areia, no fundo do mar.
Fontes
- EllaLink — Wikipedia
- EllaLink — Submarine Networks
- EllaLink official site
- EllaLink press release — Fortaleza/Sines connection
- European Commission — Shaping Europe’s Digital Future
- EllaLink press release — Telxius Fortaleza expansion
- Macau News — EllaLink boosts Europe-Brazil connections









