A Seis Minutos do Desastre

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A Seis Minutos do Desastre

Gabriel Martinelli match Japan Brazil
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Como o Brasil Sobreviveu à Emboscada do Japão e Manteve Viva a Sonho do Hexa

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Durante 95 minutos em Houston, os Samurai Blue dominaram completamente o Brasil. Disciplinado, veloz e sem o menor sinal de medo, o Japão empurrou o pentacampeão até a beira de uma eliminação que teria abalado o futebol brasileiro até os alicerces. Então, no sexto minuto do acréscimo, com a prorrogação no horizonte e uma nação inteira prendendo a respiração, Gabriel Martinelli bateu firme e baixo no canto do gol — e o pesadelo do Brasil nas oitavas de final (Round of 32) se transformou, em um instante, em uma das grandes histórias de virada deste torneio.

Placar final: Brasil 2 a 1 Japão. Gols de Casemiro e Martinelli apagaram o gol madrugador de Kaishu Sano e garantiram à Seleção a vaga contra o vencedor de Costa do Marfim x Noruega, nas oitavas de final. Não foi bonito. Não foi confortável. Mas foi, no fim das contas, exatamente o tipo de resiliência que uma equipe em busca do sexto título precisa descobrir em algum momento do torneio — e o Brasil a descobriu com o relógio quase zerado.

Como o Japão quase deu o azar

Para entender o quão perto o Brasil esteve do desastre, é preciso entender o quão bem o Japão executou seu plano. Desde o apito inicial, a equipe de Hajime Moriyasu se organizou em um bloco defensivo compacto e disciplinado, abrindo mão quase por completo da posse de bola — o Brasil terminou a partida com 61% de posse — enquanto esperava pacientemente pelos espaços que surgem quando um ataque recheado de estrelas começa a pressionar em busca do gol. Funcionou lindamente durante boa parte da noite.

Kaishu Sano

O gol em si foi um soco no estômago. Aos 29 minutos, Kaishu Sano interceptou um passe mal calculado no meio-campo, avançou pelo espaço que se abrira na defesa brasileira e finalizou com frieza, de perna direita, de fora da área — seu primeiro gol pela seleção japonesa, marcado no maior palco imaginável. Foi o coroamento de um contra-ataque rápido e cirúrgico, exatamente o tipo de jogada para a qual o Japão foi construído: absorver pressão e depois golpear com precisão no instante em que o Brasil se expõe demais.

O goleiro Zion Suzuki
O goleiro Zion Suzuki

O que tornou o Japão tão difícil de ser superado não foi apenas a organização — foi a disciplina sustentada por mais de 90 minutos sob pressão constante. O goleiro Zion Suzuki fez uma sequência de defesas espetaculares para manter sua equipe na frente, incluindo um momento de pura magia quando, de alguma forma, desviou com o polegar uma finalização enrolada de Vinícius Júnior para a trave, depois que o ponta brasileiro havia passado a bola entre as pernas de Takehiro Tomiyasu e soltado uma bomba que parecia destinada a ser o gol do torneio. O Japão também tirou uma cabeçada de Casemiro praticamente em cima da linha, mais cedo na partida — o tipo de defesa em último instante que deixava a torcida, em sua maioria vestida de amarelo no Houston Stadium, cada vez mais ansiosa.

Vale lembrar também que essa não foi uma campanha qualquer de azarão. O Japão chegou a Houston embalado por dez jogos de invencibilidade, e já havia empatado com a Holanda e vencido a Tunísia na fase de grupos — pela maioria dos critérios, esta é a seleção japonesa mais forte da história do país, com a grande maioria do elenco atuando no mais alto nível na Europa. Tinham todo o direito de acreditar que poderiam se tornar a primeira equipe japonesa da história a vencer uma partida eliminatória em Copas do Mundo.

Os melhores do Brasil: a redenção de Casemiro e o banco que mudou tudo

Se o primeiro tempo do Japão foi uma aula de defesa, a transformação do Brasil no segundo tempo foi construída em cima de substituições e do simples peso ofensivo, que finalmente encontrou a brecha.

Casemiro
Casemiro

Casemiro foi a figura central da virada do Brasil, tanto pelo pior quanto pelo melhor lado possível. Ele foi, em boa parte, responsável pela pressão que resultou no gol japonês, e viu uma cabeçada sua ser tirada em cima da linha de forma angustiante, momentos antes. Mas o veterano volante não permitiu que aquele momento o definisse: aos 56 minutos, após assistência precisa de Gabriel Magalhães, Casemiro subiu com força e cabeceou no segundo pau, sem chances para Suzuki, para empatar o jogo — um gol que falou tanto de caráter quanto de técnica, uma redenção entregue em tempo real diante de todo o mundo do futebol.

Gabriel Martinelli
Gabriel Martinelli

Gabriel Martinelli, que entrou em campo como substituto, se tornou o grande herói da partida. Com o relógio avançando fundo nos acréscimos e o Brasil rumando para a prorrogação contra uma defesa japonesa exausta, mas ainda organizada, Bruno Guimarães enfiou um passe inteligente dentro da área, e Martinelli se ajeitou antes de bater firme e baixo, no canto, sem chances para Suzuki. Foi seu quinto gol pela seleção principal — e o terceiro marcado em solo americano. Visivelmente emocionado depois do jogo, Martinelli disse que não encontrava palavras para descrever a alegria em seu coração, relembrando a torcida em pé e pensando nos pais e amigos que assistiam, e acrescentou que, depois de acertar a trave mais cedo no torneio, tinha a sensação de que outra chance ainda viria.

Vinicius Júnior World Cup
Vinicius Júnior

Vinícius Júnior, embora não tenha ampliado seu total de quatro gols — o maior do torneio até aqui —, foi, sem dúvida, a ameaça individual mais perigosa do Brasil durante toda a partida. Seu lance no primeiro tempo, em que driblou pelas pernas de um adversário e finalizou enrolado na trave, foi o tipo de jogada que quase decidiu o jogo sozinha, e sua movimentação constante e suas arrancadas mantiveram a defesa japonesa sob pressão contínua, mesmo quando o Brasil não conseguia encontrar a brecha. É exatamente o tipo de atuação que explica por que ele tem sido o jogador brasileiro mais comentado de todo este torneio.

Endrick
Endrick

Endrick, que entrou no intervalo no lugar de Lucas Paquetá, deu ao ataque do Brasil a urgência de que precisava no momento certo, ajudando a inclinar o equilíbrio da partida fortemente a favor do Brasil depois de um primeiro tempo apagado. O próprio Casemiro destacou o banco de reservas como o grande diferencial depois do jogo, dizendo que a maior força do time foi a mentalidade, que mantiveram a pressão no campo ofensivo, e elogiando a entrada de Endrick, junto com Martinelli e Rayan — que vem substituindo muito bem o lesionado Raphinha — como prova de que “este é o elenco para vencer a Copa do Mundo.”

A paciência calculada de Ancelotti

O técnico do Brasil, Carlo Ancelotti, merece crédito real por um trecho de gestão de jogo que, em retrospectiva, parece mais astuto do que cauteloso. Ele resistiu à tentação de jogar tudo para cima do Japão de uma vez, e geriu suas substituições com um olho voltado para uma possível prorrogação. Questionado sobre seu raciocínio depois do jogo, Ancelotti explicou que a equipe não perdeu a paciência, que havia bastante recurso em campo e no banco, e que o Japão não é um adversário fácil — muito organizado e intenso. Ele revelou que vinha guardando Neymar especificamente para a prorrogação, com o plano de colocá-lo em campo por volta dos 105 minutos caso o Brasil não tivesse marcado o segundo gol, e que optou por não mexer na estrutura da equipe porque ela estava jogando bem, mesmo estando atrás no placar.

Carlo Ancelotti
Carlo Ancelotti

Essa serenidade sob pressão — confiar no processo em vez de entrar em pânico ao ficar atrás do placar contra uma equipe fechada atrás — é exatamente o tipo de decisão amadurecida pela experiência de torneios que separa as seleções realmente capazes de ir até o fim daquelas que caem já nas oitavas de final (Round of 32).

Uma data simbólica, uma vitória significativa

Houve uma nota poética nessa vitória: ela aconteceu exatamente no aniversário do primeiro título mundial do Brasil, em 1958, na Suécia, quando um Pelé de apenas 17 anos marcou dois gols na final contra o país anfitrião. Para uma equipe que persegue a sexta estrela e tenta encerrar uma espera de 24 anos desde 2002, vencer um Japão obstinado justamente nessa data pareceu, para muitos dentro do grupo brasileiro, mais do que mera coincidência.

O Japão, por sua vez, deixa Houston de cabeça erguida, apesar da decepção. Sua atuação defensiva disciplinada e quase perfeita levou o atual campeão mundial de 2022 ao limite absoluto, e a derrota veio pela margem mais cruel possível — um gol no sexto minuto do acréscimo. É um resultado que vai doer por muito tempo, mas que também deve reforçar o quanto o futebol japonês evoluiu.

Para o Brasil, a lição é mais urgente do que motivo de festa. A equipe dominou a posse de bola, mas ficou sem pontaria por longos trechos, mostrou-se vulnerável ao contra-ataque e, no fim, precisou de um lance de magia tardia, vindo do banco, para evitar um resultado que teria encerrado o sonho do Hexa antes mesmo de ele realmente começar. A seguir: as oitavas de final contra o vencedor de Costa do Marfim x Noruega, em 5 de julho, em East Rutherford, Nova Jersey. Se a partida de segunda-feira provou alguma coisa, foi que esta seleção brasileira tem tanto o brilho individual quanto a profundidade de elenco necessários para sobreviver a uma noite ruim — mas, em breve, vai precisar de uma atuação mais limpa, porque nem todo adversário lhes dará seis minutos de acréscimo para encontrar a resposta.

Os detalhes da partida, citações e estatísticas acima são baseados em reportagens da ESPN, FIFA.com, Al Jazeera e Business Standard sobre a partida das oitavas de final (Round of 32) de 29 de junho de 2026, em Houston.

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