Um gigante digital na porta da floresta
O que o novo data center de Belém significa para o Pará
eyesonbrasil
Nos arredores de Belém, um canteiro de obras discreto está prestes a se tornar um dos símbolos mais contraditórios da nova economia digital brasileira. A Elea Data Centers, em parceria com a fornecedora de energia AXIA, anunciou o BEL1: o primeiro grande data center voltado à inteligência artificial na Amazônia, erguido próximo à Subestação Miramar, com investimento inicial de R$ 250 milhões, capacidade de partida de 7,5 megawatts e projeção de operação já no segundo trimestre de 2027. Nos planos da empresa, a instalação pode crescer em etapas até atingir 100 MW — o suficiente para abastecer uma cidade de médio porte inteira, só que dedicada a servidores.

Para muita gente em Belém, a notícia chegou com um misto de orgulho e apreensão. Depois de sediar a COP30, a capital paraense se vê agora cortejada pela indústria mais sedenta de energia e água do planeta digital — bem no momento em que os rios da região ainda carregam a memória de duas das piores secas já registradas na Amazônia, em 2023 e 2024, e em que o calor já é, para muitos moradores, uma presença constante e sufocante.
O lado promissor: infraestrutura, empregos e um lugar no mapa da IA
Os defensores do projeto apontam vantagens que vão além do óbvio “gerar empregos”. A chegada de um data center de ponta pode:
- Reduzir a dependência tecnológica do Sudeste. Hoje, universidades, empresas e órgãos públicos do Pará dependem de servidores instalados a milhares de quilômetros de distância. Ter processamento local significa menos latência, custos menores e mais autonomia digital para a região.
- Aproveitar uma vantagem energética real. O Pará tem forte matriz de energia limpa e infraestrutura elétrica em expansão, o que teoricamente permite abastecer o empreendimento sem necessariamente competir com o consumo residencial — desde que a energia adicional seja, de fato, gerada especificamente para esse fim, como ocorreu em projetos semelhantes no Ceará, onde novos parques eólicos foram construídos exclusivamente para alimentar data centers.
- Puxar um ecossistema de inovação. A experiência internacional mostra que grandes data centers atraem softwares, provedores de nuvem, telecomunicações e startups ao seu redor — um efeito cascata que poderia consolidar Belém como polo tecnológico da Amazônia, especialmente com o reforço de conectividade trazido pelo programa Norte Conectado e por rotas alternativas de cabos submarinos internacionais.
- Formar mão de obra qualificada. O projeto pode estimular universidades locais — a UFPA já mantém um centro de computação de alto desempenho — a ampliar cursos técnicos e de tecnologia, formando engenheiros, especialistas em redes e profissionais de cibersegurança na própria região, em vez de exportar esses talentos para o Sul e Sudeste.
- Gerar receita e legado pós-COP30. Os investimentos em infraestrutura urbana e digital deixados pela conferência climática já elevaram o padrão de conectividade da cidade; o data center poderia ser o próximo passo natural nesse processo, atraindo capital privado bilionário para uma região historicamente carente de grandes investimentos tecnológicos.
O lado que preocupa: calor, água e uma conta que a floresta pode pagar

Mas é exatamente aqui que mora a tensão. Um data center de grande porte não é uma fábrica qualquer: ele é, essencialmente, uma máquina gigantesca de transformar eletricidade em calor, e precisa de sistemas robustos — muitas vezes baseados em água — para dissipar esse calor 24 horas por dia, sete dias por semana, o ano inteiro.
- A região já está no limite climático. Entre 2023 e 2024, a Amazônia viveu suas duas maiores secas já registradas, com rios atingindo os níveis mais baixos em mais de um século de monitoramento em alguns trechos, comunidades isoladas e milhões de peixes mortos. Embora 2025 tenha trazido um alívio relativo, cientistas ligados a essas secas as associam diretamente ao aquecimento global, alertando que cada fração de grau adicional de aquecimento aumenta o risco de novos episódios extremos — independentemente de fenômenos naturais como o El Niño.
- Calor gerado onde o calor já sobra. Instalar uma fonte adicional e constante de calor residual numa cidade que já enfrenta ondas de temperatura extrema levanta uma pergunta legítima: mesmo com sistemas modernos de resfriamento, qual o efeito cumulativo de dezenas de megawatts de calor dissipado ano após ano, numa área urbana tropical?
- A disputa por água é real em outros lugares. Em projetos semelhantes no Ceará, a promessa de sistemas de resfriamento em circuito fechado — que reduzem, mas não eliminam, o consumo hídrico — tornou-se motivo de debate público, a ponto de o próprio presidente da República pedir publicamente que uma empresa garantisse uso de água de reúso e energia renovável antes de avançar. Isso mostra que as garantias de “baixo consumo de água” dependem inteiramente da tecnologia específica adotada e da fiscalização rigorosa dos compromissos assumidos — não são automáticas.
- A conta de energia pode não ser tão neutra quanto parece. Mesmo quando a energia vem de fontes renováveis dedicadas, a expansão da infraestrutura elétrica de uma região tem custos e impactos próprios — novas linhas de transmissão, subestações, e pressão sobre o sistema elétrico local, especialmente se o crescimento do data center (de 7,5 MW para até 100 MW) avançar mais rápido do que a capacidade de geração adicional.
- Benefícios concentrados, riscos difusos. Data centers são altamente automatizados e empregam relativamente poucas pessoas na operação, comparado ao volume de investimento. O risco ambiental — calor, uso de recursos hídricos, pressão sobre a rede elétrica — tende a ser sentido por toda a população, enquanto os lucros e boa parte dos empregos qualificados podem concentrar-se em poucas mãos, ao menos nos primeiros anos.
A pergunta que fica
Nenhuma dessas preocupações significa, necessariamente, que o projeto deva ser rejeitado — mas também não deveriam ser tratadas como detalhes técnicos a resolver depois da inauguração. A diferença entre o BEL1 se tornar um símbolo de desenvolvimento sustentável ou mais um capítulo de exploração predatória da Amazônia depende de decisões concretas que ainda estão em aberto: que tecnologia de resfriamento será realmente usada, de onde virá cada megawatt adicional de energia, que garantias contratuais existirão para proteger o abastecimento de água da população em anos de seca, e que mecanismos de transparência permitirão à sociedade paraense fiscalizar essas promessas ao longo do tempo — não apenas confiar nelas.
Belém não está apenas ganhando um data center. Está decidindo, nos próximos meses, que tipo de precedente quer estabelecer para a chegada da economia da inteligência artificial à Amazônia: uma que respeita os limites de um ecossistema já pressionado, ou uma que repete, com servidores em vez de madeira e minério, o velho padrão de extrair benefícios em um lugar e exportar os lucros para outro.
Fontes: reportagens de Ver-o-Fato, InfoPebas, TeleSíntese, Agência Brasil, InfoAmazonia, Observatório do Clima e Congresso em Foco (2025–2026).









